Devaneios Poéticos e Filosóficos


A inutilidade útil do conhecimento

Publicado em 21 de abril de 2020

 

(Victor Hugo Nicéas)

 

O mundo surtou. As pessoas se isolaram. Os países se fecharam. E eu me pergunto: pra quê? A resposta torna-se bastante óbvia face a nossa atualidade. O salvar vidas fala mais alto que o dinheiro. Um reflexo da realidade repetida, uma peça contemporânea do que ouvimos falar, do que outrora já passamos e sobrevivemos. A história nos traz fatos demonstrativos de como agir perante o "novo", adquirimos este conhecimento muitas vezes sem se importar e caímos nos mesmos erros dos nossos pais. Não porque queremos, mas pelo simples fato de não termos vivido, e por isso tentamos nos educar. A educação nos molda para sermos melhores, para refletirmos sobre os afazeres, um aprender difícil, porém pacífico, pois não se educa ninguém a base do "choque", nem as novas, nem as velhas pessoas.

 

Sim, como dito, até mesmo aos mais velhos cabe educação, mesmo àqueles que já viveram o passado contado, mesmo estes, que já viveram situações de horror, são capazes de isolarem em suas mentes o repugnante, fazendo-as em parte esquecer, repetir e clamar pelo mesmo mal que fora vivenciado, gritando como se isto fosse bom, ludibriando-se de realidades inexistentes. Fazemos isto repetidamente em nossa recheada história humana. Confesso que quando pessoas clamam por situações desastrosas, apenas cogito duas hipóteses: ou estão ali a solicitar aquilo por puro mau-caratismo ou simplesmente pela insegurança que possuem, por todo o medo que nutrem em si, causado pelo constante bombardeio "desinformativo" que incita um surto de polarização política para tudo. Sim, o meu país enlouqueceu. "Por favor, torturem-nos!" É o que ouço ser sussurrado em alto e bom som por lábios de conhecimentos vazios. É o temor que impele-os ao inimaginável, a realidade tornou-se surreal, o futuro enfim passou a ser enxergado como incerto, mas ao invés de acolhermos a inevitabilidade disto, optamos pelo receio e a incapacidade do observar.

 

Somos cegos que enxergam, mas não sabem como andar, somos detentores de conhecimentos que não sabemos aplicar. Queremos o "bem" sem saber seu significado. Em prol do melhor, pleiteamos pelo pior. Abraçamos uma ficção antiga que nos envolve e esgana. A história quando narrada não é uniforme, nem sequer pode ser verdadeira, pois a verdade exata só foi conhecida por quem viveu o período, e mesmo assim não o é uniforme, devido as vivências distintas de cada um, possuindo variantes internas que pessoas transmitem para seus sucessores de forma bastante particular, para se apoiarem e se guiarem. O estudo do que passou pode gerar conhecimento, mas este de nada serve se não for observado com cautela e sabedoria. O mero conhecimento sobre acontecimentos não faz com que as pessoas sintam o que realmente foi tudo, isto só a vivência ensina, mas (in)felizmente uma hora ou outra a vida nos leciona esta matéria e acabamos por perceber a nossa inutilidade útil do constante aprender.


Wu wei

Publicado em 24 de Janeiro de 2018

 

(Victor Hugo Nicéas)

 

Almejar a mudança não é de fato mudar. Mudar por mudar também não o é. Ser o que se é, acostumando-se apenas com o que tem em nosso íntimo ou em nossas vidas, é mudar. Um mudar pelo parar, um estagnar que se altera. Neste equilíbrio cósmico de ser e não ser, uma essência há de sobressair. Por que querer ser mais do que o que és? Aquele que não se contenta com o que tem ou com o que é, está fadado ao não contentamento eterno.

 

Um gari que, mesmo sem perspectiva de melhoria de vida, varre o chão de humanos com sorriso de deuses, é o mais alto sábio da vida, um mestre da mudança. Um senhor do mudar interno que torna mudo o externo pela inveja que tende a causar. Olhares de abuso, desconfiança e até contágio. Sorriso verdadeiro contagia aquele que passa, o transeunte desinformado da vida transloucada, louco comum que não entende a mudança que busca alcançar. Ela é algo puro e simples, um contentar com o presente. A chave aqui não está só no ato de esperar, mas no aceitar. Não é apenas não buscar, mas sim aceitar.

 

O mundo ocidental apenas conhece o mudar imediato de corpos perdidos. O mudar de casa, de namoro, de postura, de emprego, de roupa, de termos! Tudo não passa de termos. Falatório sem fim de corpos humanos que gritam pela alteração. "EU QUERO MUDAR!" "ISTO É VELHO, TROCA!". Outrora águas banharam homens, hoje habitam seus lixos, dejetos jogados fora pelo aparecimento de um mais novo. Esta é a mudança rasa e imediata em que vivemos. Imediatismo que surge pelo constante agito da vida. Bombardeios de sons, informações, conhecimentos, da rotina regida pelo tempo. É neste acúmulo de imediatismo e conturbações que perde-se a noção de paz. O dom da paciência nos é escasso.

 

Dor, medo, riqueza, pobreza, bem, mau... Tantos termos aquém do entendimento necessário. Um simples gesto de lábios de alguém socialmente desprezado e o mundo se renova, muda. A mudança é simples, assim como as letras que a escrevem. Um papel, uma caneta, um contentamento. Basta. Mudou-se. E deste sutil alterar, a vida caminha, dando passos curtos e calmos para cada caminho formar. Construção paciente que nada almeja, mas que apenas sabe o que é o mudar.

 


Desejo

Publicado em 25 de novembro de 2017

 

(Victor Hugo Nicéas)

 

O chão pontiagudo perfurava como pregos, batendo-se contra o corpo de quem o tocara. Pés outrora descalços foram forçados a se vestirem. O calçar fora sempre acompanhado pela música de nossas mentes que sussurrava: "Protege-te, meu bem, podes sangrar". O cansar de sentir dores trouxe a necessidade. A necessidade, com o tempo, tornou-se luxúria. E a música que do sangue protegia cessou, dando vez ao tormento do desejo. O que antes salvara vidas em dores, agora destrói pela satisfação individual de se sentir alguém. O chão já não fura, apenas nós tomamos este papel, pois o que mais dói não é o que tocamos, mas o invisível sofrido, capaz de pregar os sentimentos nas paredes da mente, rasgando tudo, deixando nada (ou quase nada). Este vazio dói, não é o nada benigno, mas o cadafalso que vidas além das nossas nos impõe a pisar.

 

Pelo visto o existencialismo bateu-me à porta, gritando o que sussurra, urrando o que cochicha. Na verdade, arrebata-me os tímpanos o desespero do viver. Quantas vidas em cinzas se fizeram em nome da satisfação vulgar? Em nome da "re-a-li-da-de"? Somos regidos para sermos alguém, montando um personagem fictício, com uma história "própria". O que temos que realmente são nossos? Talvez apenas o sentimento... Basta-nos não sermos ninguém e ainda sim sentiremos, somos criados socialmente para pensarmos que somos alguém, vivendo um sonho de ser humano.

 

Os desejos nos igualam aos animais chamados de "irracionais", mas somos os únicos capazes de superá-los. Sorrisos de alegrias vazias, surpresas por não esperar algo ou ser jogado a todo instante pelos altos e baixos da vida, cada uma delas se aproximam da essência do desejo humano no qual me referi, se interligando a ele pelo simples fato de sermos humanos, de sermos animais. Transcendência da materialidade animalesca irracional nos é necessário e creio que a felicidade seja o caminho mais ameno e contínuo, pois assim como a vida humana "real" é um constante sofrimento com picos de alegrias, a transcendência do humano é uma constante felicidade, com sorrisos de alma e não só de lábios, com possíveis quedas de tristeza.

 

Aqui ou acolá, a vida humana é um pêndulo em oscilação, então para que estas lágrimas e sorrisos vazios? Sejamos felizes e não alegres, sejamos nada e não tudo, sejamos nós mesmos. Neste vai e vem pendular, ser feliz é o que basta, sorrindo com alma, sentindo o vento no rosto bater enquanto estamos a brincar neste doce e incômodo balanço que chamamos de vida.

 


Insegurança Comunicativa

Publicado em 12 de outubro de 2017

 

(Victor Hugo Nicéas)

 

I

 

"Os cafés são invenção favorável aos testemunhos de afeto: Oferecer qualquer coisa tornou-se sinônimo de provar-se seu bons sentimentos. Daí a necessidade de aceitar, para não causar mágoa" (Sully Prudhome).

 

Nunca refletimos sobre de onde veio essa "cultura" de "o senhor aceita uma água, ou um café?" Tudo tão mecânico que passamos desapercebidos da razão. Não pensamos em quase nada, aceitamos viver no que nos é imposto. Imposto, por quem? Para quem? Tem que pagar? O ser humano precisa mais do que a mera inteligência para diferencia-lo de macacos. Sem a sabedoria, o que nos resta? Viver a vida no automático, sem entender, sem questionar o, por quê? Reclamamos! Esta é a maior graça de todas. Não entendemos, nada fazemos, mas reclamamos, reclamamos e reclamamos, sem um fim, apenas por falar, para ter a leveza no corpo e todos os dias acordar achando que fez algo de útil.

 

Ao ar livre, olhamos para cima, o que vemos? Céu? Cercado? Que cerca meu telhado? Um teto de algodão? Em mim, pensamentos consomem em sofreguidão, em tu, o que fazes? Conceito! Cada pensamento igualmente corretos, cada visão/interpretação se faz verdadeira. Cria tua verdade, não uma mentira, mas teu conceito, te cria, te renovas!  És o que és, justamente porque não o és. Ser de mutabilidade, mutável no pensar, louco no agir, um sadio louco, claro. De loucura muitas vezes nos falta. Quanta regra, quanto modo de agir "corretamente" que lhes é imposto. Aqui voltamos: imposto, que desgraça. Em posto o tornamos, um superior, outro inferior por "natureza", que crime crer nisso. Inferior por uma lei natural? Escravidão se fincou nisso por muitos anos. Até hoje, escravo ou trabalhador, existe diferença? Após o fim da escravidão, para onde foram os negros livres? Morreram... Ou continuaram a trabalhar, mas de forma remunerada (ou não), então escravos viraram trabalhadores e hoje são eles que mantém este sistema. Muita inteligência de maquiavélicos, pouca sabedoria... Mas é o "jeitinho" para se ter o que quer, não é mesmo? No cotidiano isto está presente, quiçá na história. 

 

Certa vez Debret afirmou que os donos de escravos no Brasil vestiam-nos pomposamente como modelo de sua riqueza, eram alimentos ambulantes do ego humano, uma aparente reafirmação viva da importância monetária. Afirmei aqui o quão os meios de trabalhos existentes na atualidade se assemelham a escravidão, no âmbito jurídico, de que importa o conhecimento, o estudo, se belas vestes lhe faltam? Um dress code como reafirmação aparente da riqueza na modernidade, como alimento do ego de seu patrão, é o que importa. Somos animais de estimação, Huxley tinha razão ao afirmar que “a ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão”. Panem et circenses!

 

Melhor escravos que se veem livres, do que os que possuem consciência da própria prisão. Liberdade! Cadeia! Estou livre... Ilusões de liberdade que devaneiam no pensar, seres com certezas no achar. Reflexão! Sophia! 

 

Palavras possuem significado próprio? Liberdade, o que é? Escolher opções de acordo com as probabilidades que o mundo oferece? É trabalhar sem querer para que talvez um dia consiga realizar um sonho? Liberdade, literalmente falando, é apenas um conjunto de símbolos (letras) que usamos a todo momento, o seu significado varia de pessoa para pessoa. Liberdade para os escravos é não ser escravos, liberdade para o humano contemporâneo (claro que há as exceções) são às saídas noturnas (mas apenas nos fins de semana! [sendo esta uma forma de imposição social]). Ser livre é viajar como quiser? É deferir truculências para terceiros? Ora, temos liberdade... Não é? Liberdade enquanto matéria “palpável” continua sendo prisão, ora boa, ora ruim, mas complexa, assim como o funcionamento humano. Talvez exista uma verdade única sobre as coisas, mas esta transcenderia o material, portanto incognoscível aos meros mortais. A liberdade não passa de uma junção de símbolos metafóricos da linguagem.

 

Uma metáfora não compreendida, mas admirada, faz de seu leitor o mais sábio dos ignorantes, pois é capaz de reverenciar o que intelectualmente o inferiorizou. Uma metáfora muitas vezes se faz mais necessária que a literalidade em si, é o que possibilita a abstração, imaginando o inalcançável, sentindo o que pouco se sente. Se lês o abrangente, o conectais a teus sentimentos, refletindo o teu interior, enxergando-te, independente da interpretação, pois esta será sempre correta, pois este é o intuito da metáfora linguística.

 

II

 

Língua pensada, língua falada, língua escrita, ouvida e vilipendiada. Milhões de pensamentos por segundos, pensados em maior escala no inconsciente, perdidos na consciência, refletidos no físico instintivamente conforme o meio submerso. Da consciência para a boca, uma limitação ainda maior. Qual conceito expresso? Entendeis o que falo? A ausência de significação própria das palavras faz evidenciar a necessidade de se entender o conceito individual aplicado a elas, mesmo que a explicação já pressuponha perda de informação pelo repasse consciente para os lábios.

 

Dos lábios para o ouvido alheio. Deturpação... Pois expressamo-nos com a mesma língua, mas não falamos a mesma língua. O que externo em palavras para ti, não repousa em tua mente com o que pretendi expressar. Deturpas-me no entendimento, mas dizeis me compreender. Não percebes que podes ter entendido erroneamente, preferes criar uma mentira reconfortante para ambos do que admitir que vives na dúvida. Palavras mortas que ecoam em mentes, com sentidos distintos para cada pessoa. Talvez apenas os conectes para acontecimentos seus ou convicções suas. Se falasse "compaixão" para S.Tomas, ele filosofaria na beleza de tal sentimento e sua grandiosa importância. Mas se sussurrasse-a para Nietzsche, este se contorceria, afirmando ser uma falsa virtude criada pela igreja, algo pútrido. 

 

O mesmo vale para discrepância da escrita, perfeitamente evidenciada por Derrida. Vivemos em uma insegurança comunicativa no qual nos abstemos da percepção fática do que afirmo, preferindo uma mentira afável. Tudo isso apenas reafirma a ignorância humana já avistada por Sócrates, sendo ele um dos poucos a assumir ser detentor do não saber. 

 

Não me rechace por isso, a ignorância também pode ser bela. Praticamos atos rotineiramente até que percebemos que o fizemos e logo após percebemos que percebemos e nos perguntamos, "por quê?" Uma pergunta vaga, que continuará vaga com o desconhecimento sobre nós. Propomos-nos tal questão com uma ânsia de domínio sobre nós mesmos, mas caímos em um hiante abismo, chegando a tal ponto que optamos pela sabedoria da ignorância.

 

A beleza da ignorância resulta no singelo fato do não saber. A faculdade do não saber torna-se belo com sua pureza, como um diamante ainda não lapidado. Ofuscando tal pureza, caímos em um abismo de tentações e parvoíces, puerilidades tomam rédeas de nossas vidas, nos impelindo para o sofrimento e amargura. Esta é a vida da maioria dos indivíduos, isso é o que buscam. Ao fim dela, julgam-se sábias, apenas por terem agido de tal forma e de repente "se descoberto". Oh! Que belo, viram santos! Daí retiram a triste ideia de que a sabedoria advém com o encarquilhar da pele. Tolos... Ignorância corrompida, idiotice formada.

 

Percebes? Uma simples palavra desperta sentidos opostos. Conflitos de opiniões surgem e contendas perduram. Deveríamos aprender com a natureza, esta sim é superior a nós. Vive em harmonia há milênios. Mar e rio, dois opostos que não se negam. A harmonia perfeita nas ondas da vida. Deveríamos ser como eles, nem salgado nem doce, mantermos no fluxo da imparcialidade e sabedoria, aceitar tudo e não ser exclusivo de nada. Política, religião, família tutti quanti. Tantas formas de partidarismo...

 

Imagino que te fazes inerte quando achincalham seres desconhecidos por sua mente e isto não lhe incomoda. Alguém se chocaria com o comentário, mas não você, pois não o conhecia. Quando xingam um familiar, se enfureces e buscas defender tal honra, apenas por existir um vinculo que o liga a tal pessoa. Porque não se calar e rejeitar as pútridas opiniões? Isso não te torna inferior ou covarde. Dá a outra face! Conheço a dificuldade do que lhes peço, mas dar vazão a palavras insignificantes é difícil, mas necessário.

 

Qualquer forma de partidarismo que adotes, ocasiona na destruição da linguagem. Usas as mesmas palavras, em ambas vertentes do conflito, sem possuir o mesmo significado, a retórica corruptiva se funda nisto. Palavras nos adelgaçam. As definimos para distingui-las, mas acabamos por ludibriar-nos. Como conseguiremos descrever o silêncio em palavras sem extinguir sua própria essência? As palavras são o taciturno de nosso pensar, torna-o simples e limitado. 


Vida

Publicado em 10 de setembro de 2017

 

(Victor Hugo Nicéas)

 

Como limitamos a vida em polos, a escolha de lados se tornou convenção quase que universal para ser uma pessoa. Vivemos tentando ser alguém, se tornar humano pelas próprias ações, quando na verdade, neste vasto drama cósmico, não somos ninguém, apenas um a mais na existência e quando seguimos este caminho polarizado, não acrescentamos em nada a este singelo “ato” de existir, não valendo a pena sermos lembrados na história, mas apenas esquecidos frente ao terror e a glória.

 

Vida não é meramente repleta de escolhas, ela vai além de qualquer convenção. Não se encaixa em nenhum polo, nem se comparada a morte, pois não é porque se está vivo que realmente se vive e vice versa. Ações são reflexos internos ou simplesmente mentiras externas para haver uma maior aceitação do todo. O que de fato importa é o que não se alcança com palavras ou pensamentos, é a leveza da certeza banhada nas incertezas.

 

Cada passo gera uma dúvida e de cada dúvida uma certeza que com o tempo pode mudar. Fui contraditório? Esse é o sarcasmo da vida, a sua graça, a oposição é sempre reconfortante, pois tudo na vida tem seu oposto, sempre! Então percebê-lo ajuda a viver na certeza da incerteza. Isto não vale apenas para a vivência negativa de fatos, mas é uma forma de olhar para além das rotulações sociais, para além do bem e do mal, do feio ou do belo, ou simplesmente da verdade ou mentira.

 

Homem ou mulher? Correto ou errado? Pra quem? A resposta geralmente se faz em prol da sociedade, o reflexo de sua aceitação costuma ser mais importante do que o brincar despreocupado de uma criança no parque. Clama-se essa aceitação e se possível uma idolatria para a satisfação do que chamam por ai de ego. Prisões de patriarcalismo em todos os ramos foi o que criamos pela história.

 

A caligrafia de séculos passados é de uma beleza ilegível para nós. Há contradição em uma única visão do observador que tenta ler e não consegue e nem por isso a torna falsa ou errada, mas a elenca como uma metáfora incompreendida, mas amada por sua aparência. Ah! Os opostos... Se chocam para além do razão irracional do homem comum, elevam a mente do seu leitor, o ascende e derruba para a vida viver, ou ao menos sonhar.

 

Sonho acordado com frequência e acordo dormindo também. Nessa inversão de papéis do pensamento simplório, uma vida se vive desligadamente, fazendo com que o pessimismo se torne nada e a dor, uma velha amiga passageira que sempre surge como intérprete de nós mesmos para a nossa razão "compreender". Vestuário, aparências, consumismo... Rótulos que desmancham em areia frente ao relaxamento do sonhar. Costumo dizer que este é o segredo vida, viver despreocupadamente, não a desordem de uma mente selvagem, mas a leveza da alma no corpo que anda, a consciência inconsciente da essência da vida, do sopro que em nós habita.

 


Ceticismo e Idealismo: formas de reflexão social

Publicado em 27 de agosto de 2017

 

(Victor Hugo Nicéas)

 

 

Mesmo que se tente, é impossível fugir do que nos está entranhado na pele. Idealismo ou ceticismo, talvez oposição ai se perfaça, mas um complemento existe. São opostos que habitam o mesmo ecossistema, mas que de tanto brigar, não param sequer um minuto para se analisarem, duas faces de um único corpo, contraposição que pode ascender.  Sendo bem hegeliano, de acordo com a ótica derridiana expressa por Sloterdijk, sendo eu, um pensador de não sei qual ordem, abrindo espaço para desconstruir-me, proponho aqui uma reflexão sobre a vida. 

 

Vejo em aspectos da semiologia hegeliana uma forma de união da matéria e da não matéria. Pegando emprestado dos termos próprios de uma filosofia da linguagem, um signo constituído de uma noção pré-conceitual do significado em contado com o objeto significante. É-nos ciência que o significada vagueia pelas mentes de quem o possui, se objetivando em corpos empíricos frios e inertes. Como a alma que adota um corpo, dando ao objeto um suspiro que por hora chega ao fim.

 

O que aqui afirmo não se faz inovador em ponto algum, mas talvez aproxime mais pessoas que se interessem por um gole de filosofia. Ora, o que um cético e um idealista podem trazer em conjunto? Indago. Opostos se atraem, não é? Um jogo de pensamentos que permeia o viver, refletindo de forma convincente quando unidos. Não matéria que se une a matéria, esta é a chave do pensamento aqui, seja significado com significante ou alma com corpo. Um vivo, outro morto. Unidos ficam vivos e mortos, pois não mata a vida nem vive o morto, mas sopra um fio de ar que proporciona ao defunto um respirar.

 

A multifocalidade do observador cético é o necessário para o mundo enquanto sujeito empírico. Em outros tempos talvez o ideal fosse essa busca incessante e direta que liga matéria e metafísica, buscando-se a magistral revelação ao sujeito, e como sujeito interprete como queira, pois sou humano, sou múltiplo. Revelação esta alcançada por poucos, talvez aos mais sábios ou aos mais destemidos, mas sempre uma minoria se beneficiava, mas e a maioria? Multidão é tosca, um aglomerado de seres pautados em uma verdade que seja socialmente aceita, excluindo aqueles que destoam do seu limitar. O idealismo talvez seja a verdade, mas de que serve se não puder ser alcançada pela maioria autolimitada? Aqui a multiplicidade se é clamada para separar os seres que se unem a um único entendimento que não entendem. Desconstrói!

 

O pluralismo do movimento de pensar se externa no agir, seja por meio do medo ou hesitação, no qual o humano não chega a um consenso interno para poder externar, trazendo a dúvida da confiança sobre si mesmo e aceitando uma verdade imposta. Como sempre digo, matéria que modifica matéria continua sendo matéria, não importando o resultado, portanto toda e qualquer ação humana é uma ação causal, sendo ela reflexo da própria mente. Ora, se a mente é no mínimo dúbia, refletindo isso no agir, como se autoanalisar para evitar uma limitação se não de forma cética? Somos donos de várias verdades enquanto matéria que satisfaz desejos, devendo assim nos basear nelas para subir o monte da sabedoria, pois, como bem disse Sloterdijk (mesmo com conceituação diversa), aquele que "começa no topo só consegue progredir descendo" e a recíproca se faz igualmente verdadeira.

 

Essa relação de comunicação direta com o transcendental serviu de base para todas as sociedades, digo isto correndo o risco de cair no problema das generalizações, mas enquanto toco a pena dos meus dedos nas folhas de vidro, não me vem à mente qualquer sociedade liberta da unicidade em prol do entendimento da multiplicidade. Não sou aqui um axiólogo valorando verdades ou costumes, mas apenas um observador que nota o quão a generalização da verdade fez imperar uma mentira no social de seres que não conhecem a sua própria multiplicidade, é como impor a uma criança que escreva antes mesmo de saber o alfabeto. 

 

O não entendimento da mudança reafirma a ignorância do refletir e consequentemente no agir, sendo o individual esquecido, pautando toda a funcionalidade social no coletivo, e daí cria-se leis, hierarquizam-se seres retirados da massa irracional para reger a mais torpe sinfonia. A noção de poder hobermasiana prevalece, fazendo-nos crer que necessitamos de constantes regramentos e imposições da sociedade, afunilando o que somos para a ela servirmos. “Escravos sociais” é o que nos resta ser.

 


Combustão da Vida Pela Ausência da Morte

Publicado em 16 de agosto de 2017

 

(Victor Hugo Nicéas)

 

http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/2048019

Link da Crônica de Julio Cortázar no qual me refiro no texto.

 

O medo da morte nos impele a viver. Sejam por registros fotográficos, por vídeos ou escritos. A falta de manutenção de ter o que já passou nos causa medo e espanto, melhor ser romântico para ao passado retornar. Morrer, de um ponto de vista naturalístico, pressupõe a preexistência da vida. Uma relação de causalidade intrínseca na matéria viva, uma conditio sine qua non da realidade nascida. Falar em morte pode ser uma barreira intransponível para certas pessoas as quais se escondem em imaginações fáticas e argumentações sensíveis.

 

Astros se modificam continuamente, o espaço enquanto matéria se modifica pela causalidade, o tempo sempre flui em sua constância, assim como a humanidade imersa neste espaço-tempo, pois também vem da matéria, sendo regido pela causalidade, nasce, modifica-se e morre, um ciclo natural existente em qualquer ser vivo. A vida é uma linda mentira que satisfaz o viver, a morte uma dolorosa verdade que impossibilita o manter. Conserva-se tudo, teme-se o desconhecido, almejando sempre continuar da forma que está, sem nada alterar, sem ao menos arriscar.

 

Porque temer o inevitável? Vive-se para trabalhar, o tempo gasto consi go mesmo é sinônimo de perda. Deve-se economizá-lo para gerar a noção de aumento da vida, sendo que de fato ainda não se vive, pois a fluidez temporal continua a corroer a carcaça humana. Esta falta de viver faz renegar o morrer, como se fosse algo que pode ser evitado. Medo é, infelizmente, a palavra chave da combustão, o motor que, aparentemente, retira da inércia a mentalidade do indivíduo, todavia é ele que proporciona o constante imediatismo existente na vida. A fuga de si mesmo torna o medroso um cético, fazendo-o subir os degraus metafóricos que nos narra Cortázar ou retirando o seu senso de ser, sem temer o que está por vir.

 

Um dos grandes problemas abarcados no bojo desta ausência de temeridade seria a necessidade, ou simplesmente a busca de retirada da própria vida devido à ausência de vontade de permanecer nela. Claro, morte liberta da vida que aperta esgana e sufoca, mas deverá ser o humano um meio para a libertação de si mesmo? O medo não possui uma validação positiva na seara social, mas às vezes se faz necessário, pois quando a fuga do “eu” ocorre por meios mundanos, o aniquilamento de si mesmo se torna banal.

 

Suicídio não se faz solução afável. Autoconhecimento/autocontrole seria o fim último humano, sua carta de alforria do ciclo da vida, uma fuga consciente e intrínseca em prol de um ideal platônico, pois a morte é justamente a inevitabilidade da vida, a reafirmação da natureza em nós. Sim, corpo é natural, uma árvore, um cachorro ou um ser humano, todos horizontalmente dispostos, com a singela distinção da razão que nos gera a falsa sensação de superioridade, no qual resulta em todo e qualquer aniquilamento existente. A ilusão da ausência de existência da morte impulsiona o viver de muitos, sendo suas vidas pautadas em uma mentira e as suas mortes encaradas com espanto.


Ensaios Filosóficos